Por Que Disruptivo?

A explicação do porquê decidimos montar um escritório de advocacia em um país com mais de um milhão de advogados.


Vez ou outra nossos amigos e clientes nos perguntam sobre o nome do nosso escritório. O que significaria essa palavra? Seríamos mesmo disruptivos? Desruptivo, disruptivo, disrupção ou disruptividade? Confesso que demorei para elaborar esta resposta e explicar as nossas origens. Não porque não estivesse seguro de nossa identidade, mas por uma dificuldade de colocar em palavras o que o nosso escritório quer representar e de colocar em prática esta prometida disrupção.


Começou com um sentimento de indignação, revolta e desapontamento com o nível generalizadamente baixo dos serviços advocatícios prestados no país. Diante de uma assimetria de informações entre clientes e profissionais, os clientes acabam tendo uma enorme dificuldade de identificar e selecionar bons advogados no meio de uma multidão, o que acaba nivelando por baixo a profissão como um todo.

Essa é a realidade de clientes como meus pais, pais de amigos, meus próprios amigos, conhecidos de conhecidos, ou seja, gente como a gente, que não consegue ter acesso a serviços adequados, pontuais e sérios a um preço justo.

Estava também insatisfeito com a própria estrutura e lógica de funcionamento dos tradicionais escritórios de advocacia, os quais estimulam uma competição insalubre entre sócios, advogados e estagiários, oferecendo pouca autonomia e quase nenhuma oportunidade de empoderamento dos profissionais mais jovens e, em muitos casos, oferecendo um nível baixo de aprendizado em relação ao tempo dedicado ao trabalho.

Ainda que tais sentimentos por si só fossem suficientes para encorajar uma mudança, de nada serve a mera indignação sem uma atitude propositiva, sem buscar alternativas viáveis e diferentes do status quo. No meu caso, bastou o ingrediente final, uma pitada do destino, para que o caldo entornasse. Recebi um e-mail de nossa primeira cliente, antes mesmo de o escritório ser montado, perguntando se estaria disposto a lhe ajudar com o inventário de seu pai recentemente falecido. Respondi que sim, ressuscitei um computador velho que estava na sala de casa e embarquei nessa aventura.


O primeiro obstáculo logo surgiu: como montar um escritório do zero, praticamente sem clientes, sem a experiência e a autoridade dos cabelos brancos (que não tardaram a aparecer), sem o chamariz de um nome consolidado no mercado e sem experiência alguma de administração? Fui atrás de palestras, livros e artigos sobre gestão jurídica e outras mil coisas afins, buscando possíveis fórmulas do sucesso. Mas por mais que eu as procurasse, chegava sempre no mesmo beco sem saída: qual seria o meu diferencial em um país com mais de um milhão de advogados? Por que as pessoas me contratariam, e não qualquer outro advogado mais famoso, mais experiente ou mais próximo a elas do que eu?


Foi em meio a essas reflexões que a ideia de disrupção acabou aparecendo. No início um tanto embaçada, confusa, insegura, mas que foi tomando forma e fazendo sentido aos poucos, até ser incorporada ao que hoje é nossa marca e nosso modelo de negócios.

Com sua etimologia no latim disruptio, termo que significa fratura e quebra, disromper é um neologismo criado para descrever alguns tipos de inovações acessíveis e simples que geram um impacto profundo no mercado, mas que vem adquirindo uma conotação social bem mais forte e maior do que o seu sentido original.

Economicamente, inovação disruptiva é aquela que busca atender um nicho de mercado inicialmente visto como pouco atraente ou defasado, no qual os serviços possuem em regra um alto custo e complexidade. A inovação disruptiva começa introduzindo simplicidade, conveniência e acessibilidade adequados para as necessidades dos clientes que estavam mal atendidos ou sem acesso a este mercado. Ao longo do tempo, a inovação vai se aprimorando e solucionando problemas cada vez mais complexos, até desbancar concorrentes tradicionais e redefinir completamente a indústria.


Um dos exemplos mais comuns é o das câmeras digitais, as quais inicialmente possuíam uma qualidade baixa de imagem, mas invadiram o mercado pelo seu preço baixo, sua facilidade de uso e sua conveniência, incluindo no mercado consumidores que não tinham o hábito de tirar fotos ou que não podiam arcar com os custos e demora para a revelação das imagens. Com o tempo, foram aprimorando a qualidade de imagem, captando fotógrafos mais exigentes e profissionais, até desbancarem grandes empresas tradicionais e revolucionarem o setor


Socialmente, disromper significa abalar as estruturas, propor algo novo que desbanque o status quo, o que geralmente está associado com a ideia de se diferenciar perante uma multidão homogênea, remando contra a maré e criando tendências que não haviam sido pensadas antes daquela forma particular.


Entre idas e vindas, acabamos pensando em um modelo de negócio disruptivo em ambos os sentidos, através de reflexões profundas sobre a estrutura clássica de organização do trabalho do advogado, sobre o relacionamento com os clientes, sobre precificação dos serviços, entre outros. Acredito que nosso modelo de escritório e, por consequência, do exercício da advocacia, possa ser disruptivo de acordo com sete pilares principais:

  1. Prezamos por uma análise multidisciplinar dos casos, com a aquisição de experiência e promoção de diálogos entre as diversas áreas do direito e outras fora do direito, buscando solucionar os problemas em suas dimensões mais profundas e para além de uma perspectiva puramente jurídica;

  2. Em nosso relacionamento com clientes acreditamos ser essencial ter transparência e confiança, elaborando soluções sustentáveis no longo prazo e de interesse mútuo, sendo parceiros dos clientes em questões que extrapolam o mero serviço advocatício;

  3. Precificamos o nosso trabalho com contratos de honorários bem elaborados e compartilhando riscos com os clientes, gerando um estímulo muito maior para que haja qualidade e eficiência no trabalho desempenhado, diferentemente do tradicional modelo puro de cobrança por hora;

  4. Reduzimos custos com uma estrutura física enxuta, tecnológica e organizada, evitando gastos e mordomias desnecessárias, o que nos permite repassar essa economia para o preço dos nossos serviços, mantendo uma remuneração razoável;

  5. Estimulamos uma maior horizontalidade dentro de nossa equipe, em contraposição a uma estrutura hierárquica e demasiadamente verticalizada, compartilhando as discussões sobre os casos diretamente entre os membros da equipe e tratando coletivamente os principais assuntos do escritório;

  6. Temos uma rotina de trabalho com horários flexíveis, possibilitando inclusive a execução dos serviços de maneira remota, o que proporciona autonomia aos membros da equipe sem perda de foco nos resultados e eficiência. Além disso, incentivamos a dedicação a atividades fora do escritório como, por exemplo, o exercício da meditação e busca do autoconhecimento, a prática de esportes e atividades artísticas, realização de viagens, atividades acadêmicas, entre outros;

  7. Focamos naquilo que sabemos fazer melhor e no que é recorrentemente exigido por nossos clientes. Em áreas fora do nosso dia-a-dia, atuamos em rede com parceiros e advogados especialistas, controlando e assegurando a qualidade do trabalho final prestado ao nosso cliente para que jamais fique desamparado ou insatisfeito.

Em bom português, acreditamos que advogado não precisa ser chato, careta, falar juridiquês e usar terno e gravata. Advogado não deve esconder informações dos clientes, cobrar caro e ser petulante. Advogado não é superior às outras pessoas apenas porque é tradicionalmente chamado de doutor e foi aprovado no exame da ordem. E o ambiente de um escritório não precisa ser uma sala fechada, cinza e monótona, na qual reina um constante mal-estar coletivo e o único desejo de ir para casa dormir.

Advogado precisa resolver problemas dos outros de forma eficaz, rápida e econômica. Precisa ser conselheiro, ouvir os problemas e os sonhos dos clientes, traduzindo para o mundo e linguagem do direito as questões de fora do mundo jurídico. E advogado precisa ter uma equipe coesa, que trabalha junto em prol dos clientes, que faz as coisas com boa vontade e pensando no bem-estar do cliente. Acreditamos ser necessário disromper a advocacia, que parece ser a última trincheira ainda imune às inovações e mudanças sociais.

Como toda inovação disruptiva, a nossa começa com uma perturbação quase imperceptível: um incômodo pequeno, que intriga e causa desconforto, mas ainda passa ignorado.
Não pretendemos parar por aqui: queremos entender e transformar essa inquietação em algo relevante, criando um movimento coletivo e inevitável de renovação e mudança. O objetivo final? Reconstruir desde a base o modo como a advocacia está estruturada.

Só o tempo dirá se nossa iniciativa foi verdadeiramente disruptiva, ou se caiu na vala comum das inovações fracassadas. Qualquer que seja o destino final, o que importa é que estamos aproveitando a viagem, fazendo bons trabalhos e compartilhando bons momentos com nossos clientes, amigos, parceiros e equipe.

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